Ontologia em enfermagem
Confesso que foi nesta aula que pela primeira vez ouvi o termo Ontologia!
Pelo
que o meu primeiro passo foi perceber o significado da palavra em si. Segundo o
dicionário de língua português, Ontologia deriva do grego ontos e logia,
sendo considerada uma “parte da metafisica que estuda o ser em si, as suas propriedades
e os modos por que se manifesta.” (Disponível em: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/ontologia )
Transportando
esta definição para a enfermagem, a ligação que estabeleci foi que a Ontologia
em Enfermagem remete para o núcleo da profissão, dos conceitos que lhe estão
subjacentes e da forma como estes se relacionam entre si. Neste sentido, resolvi continuar a minha
pesquisa, agora direcionada para o conceito de cuidar em enfermagem, que
considero ser a essência da prestação de cuidados da profissão, tendo realizado
a leitura e reflexão de dois artigos:
1 - “Ontologia e Epistemologia do
Cuidado em Enfermagem” de Andrade et al (2008) e 2 - “Cuidar: da condição da
existência humana ao cuidar integral profissionalizado” de Queirós (2015).
Relativamente
ao primeiro artigo, este tem como objetivo clarificar os termos ontologia e
epistemologia e a sua aplicação para a enfermagem, através de uma pesquisa
bibliográfica. Reforça a enfermagem como sendo uma ciência focada no ser humano
e no cuidado que é prestado ao ser humano. No texto os autores apresentam o
conceito de epistemologia baseada nos conhecimentos científicos, mas também o
estudo de todo o conhecimento, mesmo o empírico. (Andrade et al, 2008).
No que se relaciona com a epistemologia do
cuidado de enfermagem Andrade et al (2008), referem cinco problemas a
considerar: o problema analítico (como é entendido o cuidar em enfermagem), o
problema da demarcação ( limites do cuidar; o cuidar como sendo empírico ou não
empírico), o problema do método (como se obtém o conhecimento acerca do
cuidar), o problema do ceticismo (pode-se conceber o cuidado como sendo holístico?)
e o problema do valor ( faz sentido cuidar? Por quê? Para quê?).
Relativamente
á ontologia Andrade et al (2008, p78) referem que o conceito “deveria girar em
torno do estudo ou conhecimento do ser, dos entes ou das coisas como são em si
mesmas, de forma real ou verdadeira”.
Neste
artigo o cuidar é referido como sendo intrínseco ao ser humano, intuitivo e instintivo,
fazendo parte da essência do ser. Os autores consideram que apesar de já
existirem várias teorias do cuidar, o facto de cada pessoa possuir
características individuais (valores, princípios, formação académica),
influencia o processo de cuidar, o que se traduz num desafio para a enfermagem.
O ser humano é visto como um ser que necessita de ser cuidado e quando tal não
acontece podem surgir complicações físicas e emocionais, se não for cuidada
nenhuma vida vive ou sobrevive. Para o cuidar ser eficaz é necessário que o ser
humano seja compreendido e considerado, no que se relaciona com as suas
necessidades, capacidades e desejos. (Andrade et al, 2008)
Andrade et
al (2008) referem, “conceber a enfermagem, como ciência do cuidar, consiste em
supor que da mesma maneira em que o cuidar é ontológico para o homem, ele
também o deveria ser para um ser que cuida de outro ser”.
Relativamente
ao segundo artigo, o autor tem como objetivo descobrir o significado atribuído
ao cuidar em enfermagem, através de uma reflexão teórica que parte de três
textos da antiguidade. Com base nestes textos o autor aborda o conceito do
autocuidado, da ética no cuidar e da essência do cuidar. Queirós (2015, p140),
começa por referir que “O cuidar tem sido caracterizado como tema central na
enfermagem. Os enfermeiros encontram neste conceito, cuidar/cuidados a
definição do que fazem, e do conhecimento que utilizam e criam enquanto
disciplina”
No texto
percebe-se existir a preocupação de distinguir cuidado, de cuidado profissional
e de cuidado de enfermagem, pois sendo o cuidar considerado uma atitude
intrínseca do ser humano, qual o significado que este conceito assume quando se
transforma no foco de uma profissão? (Queirós, 2015)
Ao longo
da leitura do artigo compreende-se que o autor considera que para conseguir
cuidar bem, quer seja de si mesmo ou dos outros, é necessário conhecer-se a si
mesmo e aos outros, associando, no que se relaciona com a enfermagem o conceito
de cuidar de si, ao conceito do autocuidado.
Em relação
á dimensão ética no cuidar, Queirós (2015), refere a compaixão, a consciência,
a reflexão sobre a incapacidade do outro e assume que o cuidar implica uma ação
em resposta a um problema que surge, que tem de ser pensada e decidida.
Relativamente
á essência do cuidar, Queirós (2015, p145) refere que “O cuidar nos cuidados
profissionais de enfermagem, diferencia-se de outros cuidados também profissionais,
que não de enfermagem, e dos cuidados informais, já que considera para além da ação
(prestação de cuidados, também a solicitude, a compaixão a disponibilidade, de
forma dirigida, intencional, organizada e integrada”.
Após a
leitura destes dois artigos percebe-se a necessidade e mesmo a dificuldade em
definir o conceito de cuidar, pois é um conceito amplo, que tem evoluído ao
longo dos séculos e que, sendo considerado intrínseco ao ser humano é anterior
á enfermagem enquanto profissão. É um desafio para a enfermagem integrar o conceito
de cuidar como um cuidar diferenciado, um cuidar profissional que exige saberes
próprios da profissão e que não constituem o senso comum.
Após a
leitura deste dois artigos, resolvi consultar o site da Ordem dos Enfermeiros,
em busca de mais informação e percebi que em 2020 se começou a desenhar um
projeto piloto no sentido de incorporar a Ontologia em Enfermagem nos sistemas
de informação com o objetivo de os tornar mais intuitivos, facilitar a tomada
de decisão baseada na evidência científica e permitir a construção dos
indicadores associados aos cuidados e ao exercício profissional do enfermeiro,
bem como permitir uma regulação da linguagem profissional. (Ordem dos
Enfermeiros, 2020).
A
importância de conceber estes indicadores, associados aos cuidados de
enfermagem, relaciona-se com a capacidade de conseguir produzir dados,
evidências, que indiquem a relevância dos enfermeiros nos serviços de saúde,
que é essencial para o reconhecimento social e científico da profissão. Pode
dizer-se que é necessário transformar em linguagem universal e em dados
mensuráveis o cuidar em enfermagem, para que seja atribuída á profissão a
valorização que lhe pertence por direito.
Andrade, B.B., Bellini, E.F., Santos, M.E.S., Waidman, M.A.P. (2008). Ontologia e epistemologia do cuidado de enfermagem. Arquivo das ciências saúde Unipar, Umuarama, v.12, número 1, pp 77-82 Disponível em: https://www.revistas.unipar.br/index.php/saude/article/view/2232/1844
Ordem dos Enfermeiros (2020). Ontologia em enfermagem. Reunião do SESARAM. Disponível em: https://www.ordemenfermeiros.pt/madeira/not%C3%ADcias/conteudos/28set-reuni%C3%A3o-com-sesaram-ontologia-em-enfermagem/
Queirós, P.J.P. (2015). Cuidar: da
condição da existência humana ao cuidar integral profissionalizado. Revista de
enfermagem referência, série IV número 5, pp 139-146. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/3882/388241158006.pdf
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